Opinião – Menos, Brasil, menos…

A “rica” indústria jornalística brasileira continua míope em relação à necessidade evidente de estudar, pesquisar e formar bem recursos humanos. Por Carlos Eduardo Lins da Silva

O relativo sucesso econômico do Brasil no século 21 tem levado muitos compatriotas a uma sensação de euforia ufanista que se aproxima da arrogância, em especial quando ele é comparado com as dificuldades por que passam países mais ricos, tradicionais alvos de nossa inveja, como os EUA.

Afinal, não deu no New York Times que os brasileiros são agora os maiores clientes das imobiliárias especializadas em mansões de luxo em Miami, cidade em que os comerciantes das lojas mais chiques já têm de contratar atendentes fluentes em português para atender à clientela?

A aparência de que o Brasil está mesmo “bombando” e de que agora ninguém segura este país­ se espraia por diversas atividades. Inclusive as da mídia. Os jornais impressos americanos e europeus podem estar à beira dafalência, mas os brasileiros crescem em circulação e publicidade.

Mas é preciso cautela com esse entusiasmo todo. Não só há enorme distância entre riqueza e conhecimento acumulados ao longo de décadas entre eles e nós, a qual faz com que avanços de um lado e recuos de outro ocorridos há apenas alguns anos tenham relevância reduzida, como também visão de estratégia de longo prazo continua a sobrar por lá e a faltar por aqui.

Para ficar apenas na nossa seara, do jornalismo. Em janeiro deste ano, a Columbia Journalism School e a Stanford School of Engineering anunciaram a criação do Institute for Media Innovation, a partir da doação de US$ 30 milhões feita com esse objetivo por Helen Gurley Brown, ex-editora-chefe da revista Cosmopolitan.

O instituto se dedicará a construir pontes entre jornalismo e tecnologia, de modo que esta, que tem sido a fonte involuntária de tantos problemas que aquele tem enfrentado, possa ajudá-lo a recuperar-se e crescer de novo.

Apesar da crise que assola a nação como um todo e especificamente o setor da mídia, empresários, companhias e universidades nos EUA mantêm a tradição de investir no ensino e pesquisa de longo prazo, sem se preocuparem com os ganhos imediatos que possam gerar.

Foi Joseph Pulitzer, proprietário de jornal, quem em 1902 financiou a escola de jornalismo da Universidade Columbia, que passou a operar dez anos depois e se tornou referência mundial de conhecimento. Donos de diversos outros veículos (Chicago Tribune, St. Petersburg Times e muitos outros) agiram de modo similar ao longo do século 20.

No ano passado, a Knight Foundation, estabelecida pelo grupo Knight Ridder, que chegou a ser a maior cadeia jornalística dos EUA, deu US$ 3,7 milhões ao MIT para criar o Center for Civic Media, que pesquisa como as comunidades obtêm e produzem informações e como as pessoas tomam decisões baseadas nessas informações que as tornam civicamente ativas.

Esse centro vai trabalhar em estreita colaboração com o famoso Media Lab do MIT para poder mesclar e aprofundar o conhecimento de novas e antigas tecnologias de comunicação com o objetivo de ampliar a participação de cidadãos na vida política das comunidades americanas.

Boa parte da comunidade acadêmica brasileira também contribui para a quase total inexistência de cooperação nessa área ao se manter refratária ao diálogo com empresas que por ventura se disponham a colaborar com elas.

Os dez anos que separaram a oferta de Joseph­ Pulitzer à Columbia e o início de operação do curso de Jornalismo em parte se deveram à resistência de membros do corpo docente da época em aceitar dinheiro do dono de jornal. Mas esse tipo de preconceito foi há muito tempo superado na academia americana.

Enquanto a “pobre e decadente” mídia americana ainda junta “tostões” para capacitar professores, pesquisadores e estudantes de jornalismo, a “rica” indústria jornalística brasileira continua majoritariamente míope em relação à necessidade evidente de estudar, pesquisar e formar bem recursos humanos.

Iniciativas para a criação de entidades voltadas especificamente para a pesquisa na área da comunicação no Brasil têm morrido porque empresários do setor não se dispõem a fazer investimentos, muito modestos se comparados aos exemplos americanos citados acima. Aparentemente, os empresários se preocupam em perder décimos de seus índices de lucratividade imediata.

Enquanto essa atitude prevalecer no ambiente empresarial da mídia do Brasil, o País poderá até continuar a exibir seus progressos, mas eles sempre serão curtos e ralos. O jornalismo e a sociedade só serão realmente melhores quando esse tipo de visão for superado.

O artigo de Carlos Eduardo Lins da Silva, editor da revista Política Externa e diretor do Espaço Educacional Educare, foi publicado originalmente na página de Opinião da edição 1496, de Meio & Mensagem, de 13 de fevereiro.

Fonte: M&M

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