Classes C+ e C-: diferenças cruciais

Dados inéditos mostram que a nova classe média se divide em dois grupos com hábitos de consumo muito distintos

Bastam 25 toques no teclado do computador e três cliques com o mouse. Com esse ínfimo gasto de energia, pode-se verificar no Google Trends o quanto as menções à expressão “classe C” na internet (capturadas pelo sistema do buscador) aumentam por ano no Brasil. Em 2011, até o momento, o volume de dados que incluem o termo mais que duplicou com relação a 2009. Pudera. Desde que se firmou como a nova classe média brasileira — como parte do movimento consolidado no governo Lula que retirou 50 milhões de pessoas da linha da miséria no País, segundo o Banco Mundial —, a letra C ingressou automaticamente no vocabulário dos marqueteiros.

Esse piloto automático, porém, tem levado muitas empresas a encararem as 62,5 milhões de pessoas que compõem a classe C como um bloco homogêneo, com hábitos e expectativas de consumo idênticos. “É precipitado assumir que toda essa gente vai se comportar de forma semelhante”, sentencia Luciana Aguiar, sócia-diretora da Plano CDE, consultoria especializada na base da pirâmide socioeconômica que divulgou com exclusividade para Meio & Mensagem dados de uma pesquisa feita ano passado que confronta os resultados de duas subclasses dentro da C: a C+ (que corresponde a 24,8 milhões de pessoas, com renda familiar entre R$ 2.001 e R$ 3.181) e a C- (outras 37,7 milhões, com renda entre R$ 1.273 a R$ 2 mil).

Foi perguntado a 1006 paulistanos e 609 recifenses o que eles fazem quando compram um produto caro. Os respondentes da classe C- deram respostas praticamente idênticas às verificadas na camada DE: 81% não mostram o item para ninguém, 10% mostram aos vizinhos e amigos sem contar como conseguiram pagar por ele, e 9% mostram o produto e contam como o adquiriram. Já a classe C+ não apenas se aproxima da camada AB — em que, em média, 14,5% das pessoas mostram o item caro sem explicar como o comprou — como a supera. Quase um quarto (23%) dos C+ exibem sua aquisição preciosa sem revelar as dificuldades (ou as prestações) necessárias para ter acesso a ela.

 

“Há a ideia de que a classe C compra só para ostentar, mas isso não é uma verdade total. C- não tem esse perfil”, afirma Luciana. “O que a classe C+ está dizendo é ‘eu quero mostrar minhas conquistas porque foi muito difícil chegar até aqui’, e não mostra como as conseguiu para se mostrar emancipada, porque se identifica como classe média. Para classe C-, faltam produtos e serviços que lhe possibilitem ampliar o acesso ao que ela deseja, só que ainda não pode ter como a C+”.
A consultora cita como exemplo de negócio bem-sucedido nessa seara a Beleza Natural, rede de salões de beleza da periferia do Rio de Janeiro e especializada em cabelos crespos e cacheados. “A empresa oferece um produto e um serviço caros. Um tratamento custa uma média de R$ 80. Mas oferece uma experiência interessante: o lugar é bonito, a forma de lidar com o cliente é diferente, todos os espelhos são propositalmente grandes pra mostrar o corpo todo, porque a classe C não tem espelhos assim na casa dela. E, como eles sabem que o cliente não poderá voltar tão cedo por não ter dinheiro, ensinam-lhe a cuidar do cabelo com um kit.”

Dinheiro em dobro

Outra parte da pesquisa, também inédita, perguntou aos respondentes o que fariam caso tivessem a renda familiar duplicada. Em todas as classes sociais, ficam entre as primeiras opções a aquisição de casa própria ou reforma do lar, para quem já o possui, e guardar dinheiro em poupança ou investimento. É do terceiro lugar em diante, na lista de prioridades, que cada classe socioeconômica revela suas diferenças. Mais uma vez, C+ e C- se distinguem entre si por se aproximarem mais das camadas AB e DE, respectivamente.

Ambas sonham com uma segunda casa e um carro, mas a classe C+ se preocupa mais em viajar e pagar suas dívidas que a C-. “A família C+ conta com mais de uma pessoa contribuindo para a renda, tem gente em casa frequentando universidade ou curso profissionalizante. É uma família que consegue se estruturar melhor, e que, geralmente, conta com uma renda igual todo mês”, diz Luciana. A C-, por sua vez, deseja justamente ter acesso a essa educação da qual a C+ já desfruta, e tem em mente aplicar o dinheiro em um negócio próprio, espírito empreendedor semelhante ao das classes D e E, que ainda sobrevivem, grosso modo, do trabalho informal.

Fonte: M&M

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